Um meu testemunho

           As minhas quatro primeiras  classes, ou como se diz hoje, os meus primeiros  anos de escolaridade que leccionei, coincidiram com os meus doze treze anos de serviço lectivo. Nesses anos de primeira classe, adoptei o referido método analítico sintético legográfico com resultados aceitáveis para a época em questão. Julgo até que já representava algum avanço em relação ao que se praticava na generalidade.Talvez valha a pena relatar um episódio passado na Escola nº1 do Cartaxo, onde acabava de chegar, e onde logo me foi distribuída uma “primeira classe”. Vinha com três anos de serviço e uma primeira classe já leccionada na Escola nº1 do Rossio  da sede do concelho de Évora. A experiência era pouca e o que me orientava era ainda o que trazia da minha Escola de formação. Repeti então, pela segunda vez, o referido método, com todas as limitações que hoje se lhe reconhecem, mas que naquele tempo se adoptava. Como atrás se referiu, eu era dos professores que não dava o nome das letras, mas sim o seu valor que se tirava da análise das palavras que serviam de base de trabalho. Na minha turma havia um aluno filho duma senhora empregada da minha Escola, cuja função era a que hoje corresponde à de Auxiliar de Acção Educativa. Lá pelos fins de Janeiro comecei a ouvir um cochichar entre os professores da escola, mas como acabava de chegar não me admirava que as conversas me passassem ao lado.Até que um dia um colega se chegou a mim, e um tanto em segredo me disse:

__Olhe que a Sra. empregada diz que o filho não sabe ler nem lhe vê jeitos de vir a aprender!…

Resolvi chamar a mãe do aluno, tendo-lhe perguntado o que se passava. Então ela lá disse:

__Ó Sr. professor, o meu filho não sabe o nome das letras, eu pergunto-lhe e ele não é capaz de dizer.

Então voltei a perguntar à mãe:

__Mas a senhora acha que o seu filho não é capaz de ler aqueles textos pequeninos do livro de leituras adoptado?

E ela respondeu:

__ Ó senhor professor, lá ler os textos é capaz e sem ajuda. Eu estou preocupada é que ele não sabe o nome das letras!

Então lá expliquei à senhora que o que era preciso era ele ler, porque para saber o nome das letras ele tinha muito tempo, e eu ainda nem sequer lhas tinha ensinado. Mas que a seu tempo (meu) ele lá aprenderia os nomes.

       A senhora nunca mais me falou no assunto e na escola nunca mais apareceu o tal cochichar.

       O aluno em questão não tinha dificuldades em aprender a ler.

        Suponho que no meio escolar onde a minha escola estava inserida, aquela metodologia era desconhecida, fazia confusão às pessoas, professores incluídos, alimentava-se a discussão, até com o propósito de conhecer o novo professor (novo era eu) que tinha chegado lá não se sabe donde e com modos esquisitos de ensinar.

        E o método Analítico-Sitético ainda durou para mais uns três primeiros anos.

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