O ano da mudança       

               A  revolução do 25 de Abril veio quebrar todos os condicionalismos existentes e deu-se uma verdadeira explosão de vontades, de quereres, de voluntarismos, de experimentações, de erros e de êxitos, ao fim e ao cabo os resultados normais duma revolução. A hierarquia reformulou-se e os exames caíram. E apareceu em força a discussão sobre as vantagens e/ou desvantagens da integração e da segregação dos alunos ditos deficientes, hoje inclusão/exclusão de alunos com dificuldades de aprendizagem.

           Por volta do ano lectivo de 1975/76 apareceu na minha escola uma criança surda muda profunda, cujos pais se apresentaram para procederem à sua matrícula. Nessa altura de grande generosidade, as três Escolas da sede do concelho do Cartaxo resolveram fazer os seus Conselhos Escolares (órgão de administração, gestão e gestão pedagógica da Escola) em conjunto, para que as decisões fossem uniformes em toda a cidade, sendo ao todo cerca de 30 professores a decidirem em democracia directa e num tempo em que tudo tinha de ser bem discutido e votado por todos. Tempos heroicos! 

           A Escola, o que tinha ganhado, era grande poder de  discussão, com os Conselhos Escolares a funcionarem em pleno, porque no que diz respeito à sua estrutura estava na mesma. Então à volta da vinda da referida aluna para a Escola gerou-se grande discussão, dizendo uns que não vinha fazer nada para Escola que não tinha nada para lhe dar e não havia professores especializados, dizendo outros que a Escola a devia aceitar por direito que à aluna se lhe reconhecia, dando-lhe a Escola e os professores aquilo que pudessem porque a mais não seriam certamente obrigados. Eu tomei  a defesa da integração da aluna nas condições que tínhamos, mas pelos consensos formados logo vi que estava em minoria. E logo na reunião fui ouvindo dizer por ali que eu teria tomado aquela posição porque sabia que ela não me caberia por não estar a receber alunos novos nesse ano. Mas como a integração da aluna, mesmo em minoria, tem mais a ver com a moral do que a segregação, acabou por ser aceite a matrícula por consenso. E a aluna não me calhou nesse ano.

           No ano seguinte, o meu grupo de professores tinha de receber alunos do 1º ano, ficando turmas pequenas, mas sendo os alunos do 2º ano numerosos e as turmas maiores, fomos obrigados a receber também alunos do 2º ano para descongestionar e igualar as turmas, o que sucedia pela primeira vez e não mais viria a acontecer. Nesse grupo de alunos a redistribuir estava incluída a surda muda. Eu não estava a perceber o que me estava a ser preparado, mas logo por ali ouvi dizer mais ou menos em segredo que desta não me escapava de ficar com a dita aluna, que nem sequer seria sorteada como de costume, uma vez que tanto tinha defendido a sua entrada. E eu não tive coragem de exigir o tal sorteio e fiquei mesmo com ela.

         E durante as férias passei o tempo a pensar como é que eu, sem preparação especial para o caso e comprometido com a sua defesa, havia de me reconverter em termos metodológicos, no sentido de dar resposta às suas exigências e às dos outros todos da turma que não era pequena.

         Pensei que teria de arranjar um método de iniciação de leitura muito menos expositivo do que o Analítico –Sintético que usara até então, porque a aluna surda-muda, como era evidente, não ouvia. O método das 28 palavras ainda não tinha aparecido. Imaginei que a alternativa ao ouvir seria o ver e o mexer. Teria de arranjar um método com muitas ilustrações para ela ver e muito material didáctico para ela mexer. A fim de ela poder interagir com o próprio material, pensei em arranjar jogos tipo puzzle. Para que ela viesse a falar pensei que o ideal seria aplicar um processo fono-mímico de falar com a aluna. Conclui também que tudo o que estava a imaginar em função das limitações que ela apresentava, seria também de utilidade para o resto da turma, porque um dos defeitos que a maioria das aulas têm é serem excessivamente expositivas. Ora não podendo ser expositivas para a surda –muda, também não o seriam em excesso para os outros alunos ditos normais. Além disso sabe-se que grande parte dos grandes metodólogos foram professores de crianças ditas deficientes. O que era bom para elas era bom para todas as outras, ressalvando as devidas proporções.       

      Então lá imaginei e montei o MÉTODO GLOBAL’EU, que mais à frente será descrito, e que apliquei até ao fim da minha carreira com excelentes resultados, mesmo em relação à aluna surda – muda referida.

       Mas a mudança foi difícil e dolorosa, porque representou muitos dias e noites a dormir pouco, imaginando como é que eu iria articular as ideias, definir os passos e arranjar e montar o indispensável material didáctico com os meios técnicos que nem a escola nem eu tínhamos. E não eram coisas que se comprassem com o dinheiro que não havia porque estavam a ser inventadas em função duma situação singular que não faz funcionar o mercado da oferta por falta de procura. As férias grandes desse ano foram

passadas na praia e no campismo, aproveitando todos os bocadinhos para construir material, desenhando e escrevendo, cortando e recortando cartões com a tesoura. O trabalho foi tanto que o polegar direito, de tanto fazer força na tesoura, trilhou um nervo ficando dormente, tendo de levar umas caixas de injecções B 12 a fim de recuperar a sua funcionalidade. E lá se recuperou.

        Além de que mudar é coisa sempre muito difícil e incerta. É preciso ter “FÉ”.                         

        Mas foi este desafio doloroso que me reconverteu como professor. Valeu a pena!     

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