Método Analítico ou Global     

      Como contraponto ao método sintético que se considerou desadequado, apareceu a corrente pedagógico/didáctica a propor um procedimento totalmente inverso que consistia em partir do todo para as partes e do conhecido para o desconhecido.

       Na iniciação desportiva equivaleria a pôr a criança, primeiro, em contacto com a modalidade em questão, vendo primeiramente e depois colocá-la em contacto com a bola (por exemplo) em situação de jogo, tomando contacto directo e imediato com a modalidade que depois iria dominando à medida que as dificuldades lhe fossem surgindo e de harmonia com as capacidades de cada aluno da sua turma. As correcções necessárias seriam sempre feitas em situação corrente de jogo jogado. As atitudes e os movimentos necessários nunca seriam analisados fora do contacto do jogo corrente. Tudo seria visto globalmente; por isso o método também se chama Global.

       Na iniciação musical corresponderia a que se ouvisse primeiramente uma canção simples, do princípio ao fim, cantando-a depois até a decorar. A pouco e pouco o aluno vai tirando, por ele, a suas conclusões. Se depois lhe for dado o texto global escrito, em simultâneo com a pauta musical, o aluno vai percebendo por ele e à sua medida, o som das notas musicais e a sua posição relativa, as figuras, etc. É um tanto ou quanto o que sucede com os elementos dum coro musical. Ele aprende a cantar globalmente uma cantiga, mas ao darem-lhe, por sistema, uma folha com a música e a letra do que está a ser cantado, o aluno elemento do coro, no futuro, começa a perceber sozinho a cantiga escrita antes de ser cantada. A aprendizagem partiu do todo para as partes e foi feita globalmente, e por isso se chama Global.  Na aprendizagem de mecânico o aluno

começaria simplesmente por observar o automóvel, e depois de tantos observar até começaria por diferenciar as marcas e os modelos. Observando o motor a trabalhar, iria tendo a percepção de todo o motor e da sua função, assim como se relacionavam as diversas peças. A aprendizagem começava pelo todo, por uma visão global do automóvel e do seu motor e só contactaria com alguma peça se fosse retirada do seu sítio e da sua função. Também aqui se chamaria método Global.

        Na aprendizagem da leitura e da escrita, o aluno aprende primeiro um texto escrito. À medida que contacta com o texto que já decorou, vai-se apercebendo a par e passo e à medida das suas capacidades, das suas partes componentes, tirando as suas conclusões. É natural que a pouco e pouco e por ele comece a identificar palavras que lhe aparecem em todos e depois em alguns dos textos que já decorou. E assim comece a ler sozinho algumas palavras e mesmo algumas pequenas frases, que tendo algumas palavras que já conhece e outras que não conhece, conclua  pelo  sentido a frase completa que dirá. E o aluno começa a ler quase sozinho. Na escrita, o aluno vai escrevendo a frase ou frases cuja leitura já conhece como um todo, não distinguindo as letras nem as palavras, de início. O papel usado será o liso, (sem linhas) para poder dar largas às suas dificuldades e falta de jeito, não interessando primeiramente o carreto traçado, proporção ou tamanho de cada letra, nem mesmo de cada palavra, porque o que interessa é o significado da mancha, isto é, ele perceber que passando para o papel uma determinada mancha, ela significa uma ideia que primeiro funciona em monólogo (só ele interpreta) para depois começar também a ser percebida pelo professor quando tornarem comuns os sinais (as letras) contidos em cada mancha, e começa o diálogo e a comunicação.

       Foi este o método obrigatoriamente usado nas colónias portuguesas, julgo que até ao 25 de Abril e à sua independência. Todos os professores que da metrópole iam para lá trabalhar teriam de trabalhar por este método que também partia do todo para as partes e do conhecido para o desconhecido. O todo e o conhecido era o texto decorado, porque os alunos percebiam e interessavam-se por cada história contada e as partes, e o desconhecido eram as letras, porque um Pê ou um Bê, que eram as partes, não eram deles conhecidas, e por isso não lhe despertavam qualquer interesse. Tudo partia do global e por isso se chamou método Global.

       Logo a seguir ao 25 de Abril, nessa época de grande generosidade, dedicação e entrega dos professores, no sentido de procurarem e aplicarem novas experiências, o grupo de professores das três escolas da sede do concelho do Cartaxo (todos trabalhavam em comum) que num determinado ano teve o 1º ano, resolveu discutir entre si que método ou métodos se deveria aplicar nesse ano. Uma professora que trouxe das colónias a experiência do método Global, propôs este método por lhe parecer o melhor, no que não foi seguida por mim porque discordava dalguns passos do método, criando eu aqui, em alternativa, o método Global’eu (global pensado por eu). Parte dos professores do grupo seguiu com ela e outra parte seguiu comigo. No entanto continuámos a trabalhar e a discutir em conjunto. Foi pena que não se tivessem avaliado as duas experiências em termos absolutos e em termos relativos no sentido de se tirarem conclusões que poderiam vir a ser interessantes no futuro. 

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