Considerações

       1º- O método Global’eu poderá parecer muito trabalhoso e quase impossível de montar; no entanto, adquirido o material e percebendo-se o encadeamento dos procedimentos, oferece muita segurança pela previsibilidade das tarefas a efectuar e ver a grande distância toda a planificação do trabalho. Afinal tudo se simplifica. O difícil é montar e ter confiança no esquema. A simplicidade é inerente ao material de que se dispõe e à versatilidade do seu uso. É a insegurança do jornaleiro em contraponto com a estabilidade de quem pertence a um quadro duma instituição. Um vive o dia a dia, o outro monta o futuro.

        2º- A aplicação do método Global’eu dá ideia de ser muito morosa, levar muito tempo a aplicar o método com todas as suas partes constituintes. Nos anos em que o apliquei, verifiquei que efectivamente levava muito mais tempo a pôr os meus alunos a ler no livro de textos adoptado do que as colegas que iniciavam o seu trabalho logo pelo livro de textos e através de outros métodos. Quando eu começava a trabalhar no livro de textos já todas iam bastante adiantadas na sua utilização. No entanto, mais para o fim do ano, era já eu que ia mais adiantado na exploração dos textos. A conclusão que tirava era que, parecendo que perdia tempo na aplicação das 1ª¸2ª e 3ª fases do método, eu efectivamente estava a ganhar tempo, porque quando iniciava o trabalho no referido livro, tudo era mais simples, fácil, proveitoso e rápido.

      3º- Poderia pensar-se que esta eficiência se devia ao facto de ser eu o criador do método e conhecê-lo por isso melhor, tirando daí grande vantagem comparativa com as colegas que comigo o adoptaram. Mas pela comparação que podia fazer com essas colegas que comigo aplicavam o método Global’eu, verificava que elas eram mais rápidas a tirar partido dele do que eu.

a)      A professora D. Emília, que exercia na minha Escola, aderiu ao método Global’eu. Nos anos que tínhamos ambos o 1º ano de escolaridade, sempre íamos falando como a aplicação do método ia resultando, por comparação entre os que a ele tinham aderido e por comparação também com as que aplicavam outros métodos. Num dos anos, essa colega D. Emília, aí por perto das férias do Natal, chamou-me à sua sala para eu observar a leitura de alguns alunos. Um deles, o Pedro Henriques, estava a ler tudo onde quer que fosse, e com bastante desenvoltura. Ainda perguntei se ele não tinha vindo de casa já a ler alguma coisinha; mas não, era coisa mesmo da Escola. E eu fiquei admirado como é que ele já lia daquela maneira, incomparavelmente melhor do que os meus alunos. Isso devia-se ao facto de essa colega ter imprimido um maior ritmo de trabalho no método do que eu. Depois dos elogios merecidos que os alunos me mereceram, sempre fui dizendo à professora que talvez estivesse a imprimir um ritmo demasiado apressado à turma; mas parece que não, pelos resultados finais que conseguiu. Conclui que talvez fosse eu, autor do método, que tivesse ido um tanto devagar de mais!…Ou talvez dependesse da turma!…Ou de mim próprio!…Ou do medo que o método falhasse!...

b)      Num dos outros anos em que voltei a leccionar o 1º ano de escolaridade, tinha chegado à minha Escola uma jovem colega, a D. Adélia, que integrou o grupo de professores que iria trabalhar com os 1ºs anos. Esse grupo de trabalho, ao preparar o ano lectivo e ao discutir os métodos a adoptar, essa professora mostrou-se indecisa pelo facto de não ter prática de leccionar o 1º ano e estar confusa. Propus-me ceder-lhe o material didáctico do método Global’eu e explicar-lhe a estrutura do método ao mesmo tempo que me dispus a apoiá-la, passo a passo, durante o ano, já que era da minha Escola e até trabalhava na mesma sala que eu. E a D. Adélia lá começou a trabalhar com o método sem me perguntar grandes coisas durante o ano; pareceu-me, por isso, que se tinha integrado bem.

     Aí por volta do fim do mês de Janeiro, a referida professora convidou-me a ir ver a leitura dos seus alunos. E quis que eu ouvisse e visse o Jesus a ler. O  Jesus era um rapaz pretinho muito pequenino, muito levezinho, filho de família de poucas posses económicas e de baixo nível cultural mas muito simpático. Pois o Jesus estava a ler como “gente grande”, fosse onde fosse, deixando-me admirado com tal feito; e sem mais ajudas de mais lado         nenhum. Eu lá elogiei o Jesus que ficou muito contente e felicitei a colega pelo trabalho que revelava ter feito. No entanto, lá lhe fui lembrando que não tivesse pressa; é que eu ia muito mais atrasado no meu trabalho com os meus alunos também do primeiro ano. Mas ela que ia ali com tanto êxito era porque tudo lhe estava a correr bem!… O Jesus teve depois grandes dificuldades em concluir o primeiro ciclo com aproveitamento, que não na          leitura. O método Global’eu ter-lhe-ia assentado bem?!...

            No fim do ano e em Conselho Escolar, ainda a Sra. professora Adélia se referiu ao sucesso do método Global’eu na sua turma; mas aqui a coisa correu relativamente mal, porque alguns elementos desse Conselho reagiram negativamente ao facto de ser só com este método que se conseguiria sucesso; é que a professora Adélia, de tão jovem ainda, não se tinha dado conta que os “santos da casa não fazem milagres”, quanto mais vivos, presentes e sem serem santos!...

c)      Uma outra senhora professora doutra Escola da sede do meu concelho, a D.Teresa Brásio, mãe dum meu aluno que fez comigo o 1º ano de escolaridade, fazendo parte do meu grupo de professores que leccionavam primeiros anos e trabalhavam nas três Escolas da sede do concelho, mas que nos juntávamos por sistema para discutirmos as coisas da Escola, também aderiu ao método Global’eu, tendo-o aplicado em todos os       primeiros anos que leccionou  a partir desse momento até hoje. No seu primeiro ano de escolaridade de 1999/2000, tendo-me eu já aposentado, pediu-me novamente que eu lhe fornecesse o material didáctico necessário,  o que eu fiz. Antes das férias do Natal, tendo-me encontrado, convidou-me para eu ir à sua sala para ver como os seus pequenitos iam nas coisas da leitura. Eu aceitei, por um lado, para matar algumas saudades duma sala  de aula que um professor recém aposentado sempre sentirá, e por outro  para verificar como ia aquele método Global’eu que, como é natural, a mim me diz muito. Pois os alunos já todos liam textos que a professora escrevia no quadro preto; é natural que uns mais desembaraçados que outros, mas todos já liam. Lá fiquei eu admirado com a precocidade da leitura, tendo elogiado os alunos e felicitando a professora pelo sucesso do seu trabalho, lembrando-lhe que não tivesse pressa porque tudo tem de ir com alguma prudência. Se calhar foi conversa escusada, porque se eles estavam a ler assim era porque certamente suportavam o andamento; eu é que    costumava ter um ritmo mais lento com os meus primeiros anos e isso será  coisa pessoal. 

d)      A Cristina (aluna surda muda profunda referida no início deste trabalho), que tem agora mais de vinte anos, encontrei-a há uns tempos no café. Muito simpática comigo, passou-me logo o jornal que estava a ler, porque já o tinha lido, segundo argumentou. Mas logo a seguir deu a notícia na televisão do café que um cantor norte-americano tinha falecido. Eu e ela olhámos para a televisão para darmos atenção à notícia que passava. Então a Cristina pediu-me novamente o jornal, procurou de página em página, até que, achando o que queria, me mostrou a notícia no jornal referente ao que se tinha visto na televisão.  E ali fiquei eu, ex-professor da Cristina, um tanto comovido ao ver que ela tinha tirado algum proveito do método Global’eu, que eu tinha criado em função da deficiência dela e com algum sucesso, porque tendo-se passado já uns bons anos, a Cristina ainda não se tinha transformado num dos analfabetos funcionais, como outros que fazem aumentar de ano para ano o número de analfabetos do país. Um professor contenta-se e comove-se com pouco!... Ou talvez não?!...

e)      A certa altura da minha vida profissional fui fazer uma acumulação de serviço à Escola de Vale da Pedra do concelho do Cartaxo. Leccionei aí uma primeira classe (1º ano de escolaridade). Um dos meus pequeninos alunos tinha por apelido Sereno. Era mesmo dos mais novinhos, muito pequenino, de pele muito branquinha, cara muito bonita, muito simpático e ainda um pouco introvertido mas de olhos vivos e espertos. Um dia, estávamos estávamos caçando palavras que começavam por “s”, e cada um ia descobrindo uma, mas o nosso Sereno, ainda que atento ao que se estava a passar e de olhos bem abertos, não avançava com nenhuma. Vendo eu que o Sereno estaria em luta com o seu acanhamento e querendo incentivá-lo, dirigi-me directamente a ele, dizendo-lhe:

---   Então não queres dizer nenhuma palavra começada pelo “s”? Não sabes        nenhuma? Olha, “Sereno”!...

      E o Sereno, abrindo mais os seus olhitos e sorrindo de alegria, exclamou:---   E “sacana” senhor professor!...

---   Muito bem!... Ora vês tu como sabias uma palavra!... – exclamei eu, cheio  de vontade de rir com a inocência e a oportunidade da resposta do  pequenito. São estes momentos impagáveis que fazem a vida dum  professor um ramo de felicidades!...

                        O autor

                                           João Maria de Oliveira


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