A leitura no seio da família.

          Antes da leitura propriamente dita, ou seja, daquela que a criança aprende na Escola, há uma série de actividades que as crianças podem e devem ter logo desde muito pequeninas, que antigamente não eram usualmente consideradas como úteis e que hoje se consideram imprescindíveis.  São actividades que os pais podem promover e incentivar com a mesma naturalidade com que se lhe oferece um pandeiro com que ele faz ruídos ou um boneco de borracha que a criança morde e ele apita. São os livros que se lhe podem dar desde muito cedo porque agora os há de pano resistente e cores fixas e que passará a constituir qualquer coisa com que a criança se relaciona afectuosamente, constituindo laços que poderão  perdurar por longos e úteis anos, quiçá por todos os anos da sua vida que há pouco começou. É natural que a criança os morda, os amachuque e por fim os estrague; mas não há que restringir o seu manuseio, porque é pelas mãos que as primeiras noções intelectuais entram na sua cabecita. E se as mães, com o jeitinho natural que se lhes reconhece, começarem a falar com o seu bebé sobre aquele livrinho, podendo, logo que a criança comece a compreender, e ela compreende muito antes de nós supormos que é possível, a mostrar-lhe os desenhos e dar-lhe “vida”, então o livro sairá vantajosamente sobrevalorizado por ficar associado ao carinho materno.

      Antigamente os pais, e os avós especialmente, contavam estórias de encantar aos seus pequenitos, por via oral, conversando paciente e sabiamente com eles; ainda que se mantenha actual a sua utilidade - que não a prática, infelizmente - como factor de desenvolvimento da maturidade do oral, seria vantajoso que se intercalasse uma estória lida (ou mesmo inventada) dum livrinho que a criança manuseie, indo o adulto sempre apontando o que lê, ou fingindo que aponta, com a intenção da criança começar a perceber o sentido – esquerda direita – da leitura e escrita e do valor do  conteúdo que tais estórias contêm. Por uma questão de esquema corporal, é conveniente que o adulto coloque a criança numa posição equivalente àquela que a criança teria se estivesse já sozinha e crescida com o livro à sua frente; ou seja: a criança será colocada ao colo, de costas encostadas ao peito do adulto, pondo-se o livro em frente da criança e a distância conveniente dos seus olhos e de modo que as suas mãozitas possam tocar o livro que o adulto aponta e lê por cima da sua cabecita. É assim natural que a criança se comece a relacionar carinhosamente com o livro e com as estórias que dele saem.

         Em momentos de lazer, é também muito importante que a família faça as suas leituras em situações de partilha com a criança; isto é, se o pai e/ou a mãe se encontram a ler - e seria bom que o fizessem com frequência - um livro, um jornal, ou uma revista, etc., parece evidente que também a criança, primeiro por simples imitação (todas gostam de imitar os adultos) seja estimulada para ler (a fingir) o seu livro. É um momento de intimidade familiar estimulante e de grande proveito futuro. É claro que o filhito se cansa mais depressa da leitura que os pais. Em princípio!…

        Quando a criança já sabe falar, é muito fácil pô-la a ler (a fingir) uma estória dum seu livrinho, à semelhança  do que o adulto costuma fazer com ele, fazendo o movimento esquerda/direita da leitura e recriando umas das estórias que o adulto lhe leu. É um exercício deveras estruturante para a futura função da leitura e que poderá ser sistematizado até à entrada da criança para a Escola.

         Toda a criança globaliza com muita facilidade, quer dizer, consegue ver o todo das coisas antes de conseguir ver o pormenor. Se passar um automóvel para o qual ela olha, se lhe perguntarmos o que é que passou, ela responderá que foi um automóvel, com muita facilidade, mas se lhe perguntarmos a cor, o feitio, quem ia lá dentro e quantas pessoas  eram, ela provavelmente falhará. Com o adulto também se passa isso, só que, como tem mais capacidade de análise, consegue individualizar pormenores. Assim, parece vantajoso que se exercite essa capacidade globalizante, esperando que amadureça mais tarde a capacidade de análise que depois deverá também ser trabalhada. Também é costume a família mandar fazer pequenos recados ao filho, quer seja no sentido de lhe avaliar as capacidades já desenvolvidas, quer para lhe desenvolver as capacidades de compreensão/resposta. E a criança reconhece com facilidade os objectos que se lhe mandam buscar, quer pela cor, pela forma, pelo tamanho ou pelos desenhos que têm. Então poderemos aproveitar o que por tradição se faz, para desenvolver a criança no sentido da leitura. Basta que etiquetemos os objectos que nos rodeiam  e/ou os brinquedos com o seu nome escrito em letras maiúsculas de imprensa e de tamanho grande, e mesmo as pessoas de casa com o seu nome. É assim possível que a criança comece a aliar o nome das coisas e das pessoas pelo nome nelas escrito, de forma global, podendo nós perguntar-lhe onde está escrito o nome de cada coisa ou pessoa, indo ela apontar com o seu dedito a respectiva palavra. Convém que se comece por etiquetar uma só coisa ou pessoa de cada vez, aumentando a pouco e pouco o seu número, podendo, também a pouco e pouco, solicitar á criança que coloque ela a etiqueta no objecto ou pessoa certa, à semelhança do que vê fazer  quando é o adulto a pôr as etiquetas (as etiquetas devem pôr-se e tirar-se frequentes vezes, à vista da criança, pronunciando-se o nome de modo que a criança ouça e veja). Deve-se  evitar dizer--se o nome das letras que compõem cada nome porque:

1º A letra não significa nada para a criança;

2º O nome da letra é uma coisa e o seu valor é outro, devendo, só quando a criança já identifica as palavras globalmente, privilegiar-se o seu valor, deixando o nome da letra para quando a criança já domina, sem hesitações, a leitura;

3º Reconhecer uma letra numa palavra é um esforço de análise para que, uma criança demasiado  pequena, poderá ainda não estar preparada;

Mais tarde, poderemos complicar a brincadeira, mostrando somente a etiqueta e pedindo nós que ela pronuncie o nome a que se refere.

Escrever também é coisa que a criança poderá fazer bem cedo, não significando no entanto o mesmo que entre adultos. Se o adulto, a mãe de preferência, escrever à sua frente o nome de coisas ou de pessoas que lhe são mais queridas, ou frases pequenas que já signifiquem acções do agrado do pequenito, e as for lendo à sua frente, é natural que depois também ela queira imitá-la e ser ela a escrever as mesmas coisas. É claro que não sairão palavras com letras bem traçadas e sejam simplesmente riscos. Mas se a criança disser o que acha que aquilo quer dizer, então aquilo é ler, porque tudo aquilo significa o mesmo que para a mãe significava a escrita do adulto. E aquela escrita e leitura  têm um valor extraordinário que urge aproveitar e desenvolver. 

     Com as crianças, é a brincar e ao faz de conta que a gente se entende!…  

 

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